terça-feira, 30 de agosto de 2011

Alfabetização e conscientização

 
Paulo Freire

O Brasil deve a Paulo Freire a inclusão na categoria de lutadores sociais de milhões de brasileiros e brasileiras que compreenderam o que é ser sujeito de sua própria história. Permitiu a um número expressivo de pessoas que pertenciam aos “de baixo” enxergarem–se como agentes transformadores na busca por uma sociedade mais justa e igualitária. Deu-lhes a chance de escolher seu próprio caminho, em vez de ficarem sempre presos às alternativas impostas pelas elites para perpetuar sua dominação de classe e a brutal exclusão social que sofrem os trabalhadores no Brasil, e em toda periferia capitalista.

Não é à toa que os interessados em manter seus privilégios e a alienação do homem e da sociedade brasileira viram logo no seu “método” um perigo iminente à manutenção do status quo, uma ameaça sem precedentes a seus valores e instrumentos de dominação, uma verdadeira “subversão da ordem”, pois se tratava não só de alfabetizar com rapidez e eficácia, mas, estimular o processo de conscientização. O medo das elites se agravava quanto mais crescia a aceitação de sua metodologia. Freire se refere a este fenômeno afirmando que “se não tivesse sido interrompido pelo golpe de 64, naquele ano, deveria estar em funcionamento vinte mil círculos da cultura em todo país”.

Paulo Freire como intelectual orgânico e, mais do que isso, como um militante político, ao colocar seus conhecimentos em prática, valorizando o homem do povo, aprendendo com a vida, formando educadores engajados e respeitadores da experiência e da sabedoria popular, transformava valores, atacava a meritocracia, o autoritarismo e a hierarquização nas relações. Subvertia a ordem do poder dominante, da lógica do lucro, dos ricos, valorizando o homem e a natureza.

Nesta passagem do seu livro “Educação como prática da liberdade” encontramos uma pequena síntese de porque o pensamento de Paulo Freire amedrontava aqueles que têm pavor do “despertar” das massas:

“Como explicar que um homem, analfabeto até poucos dias, escreva palavras com fonemas complexos antes mesmo de estudá-los. É que, tendo dominado o mecanismo das combinações fonêmicas, tentou e conseguiu expressar-se graficamente como fala.

A afirmação que nos parece fundamental de ser enfatizada é a de que, na alfabetização de adultos, para que não seja puramente mecânica e memorizada, o que se há de fazer é proporcionar-lhes que se conscientizem para que se alfabetizem.

Daí à medida que um método ativo ajuda o homem a se conscientizar em torno de sua problemática, em torno de sua condição de pessoa, por isso de sujeito, se instrumentalizará para suas opções.

Aí então, ele mesmo se politizará. Quando um ex-analfabeto de Angicos, discutindo diante do presidente Goulart e sua comitiva, declarou que já não era massa, mas povo, disse mais do que uma frase: afirmou-se conscientemente uma opção. Escolheu a participação decisória, que só o povo tem, e renunciou a demissão emocional das massas. Politizou-se.”


Fontes de Consulta:
FREIRE, Ana Maria Araújo. Paulo Freire: uma história de vida. Indaiatuba,SP: Villa das Letras, 2006.
SOUZA, Ana Inês. Paulo Freire – Vida e obra. São Paulo: Expressão Popular, 2005.
FREIRE, Paulo. Educação como prática da liberdade. São Paulo: Paz e Terra, 2007.
_____ Pedagogia da autonomia. São Paulo: Paz e Terra, 1997.
_____ Pedagogia da esperança: um encontro com a pedagogia do oprimido. 11ª. Ed. São Paulo: Paz e Terra, 1997.
_____ Educação na cidade. 5ª. Ed. São Paulo: Cortez, 1995.
_____ Extensão ou comunicação? Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1983.

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